Pureza racial indica sempre que o pet está de acordo com o padrão da raça?
06/01/2026
Esta é uma pergunta bastante comum relacionada à resultados de composição racial para cães de raça pura: todo cão com resultado de 100% de uma determinada raça será necessariamente similar ao padrão daquela raça? A resposta é não! Pureza racial e padrão da raça não são sinônimos! Aqui nós iremos lhe explicar por quê.
Em primeiro lugar, é importante lembrar que nem todo cão de raça terá um resultado de exatamente 100% de uma única raça. Em algumas raças com variabilidade relativamente alta, é comum que cães de raça tenham 75% ou 80%, por exemplo, de composição da raça principal, e isto não é necessariamente uma comprovação de mistura. Esse tema é tratado em outro texto de nosso blog, que você pode acessar aqui.
Mas e quando um cão de raça pura tem a composição de 100% de uma única raça? Isto significa que encontramos 100% da “assinatura genética” que conhecemos para aquela raça! E a assinatura genética é determinada a partir de um conjunto de cães desta raça, previamente avaliados no laboratório, presentes no “banco de DNA”. Por exemplo, digamos que o banco da petgenoma tenha 50 cães da raça Pastor Alemão: esses cães fornecem o padrão esperado da composição genética pra essa raça, que é a assinatura genética da raça. Quando um novo cão é analisado, seu DNA é comparado com esta assinatura genética, e com todas as outras das mais de 250 raças presentes no nosso banco. Caso o cão analisado demonstre compatibilidade com toda a assinatura genética do Pastor Alemão de nossa base de dados, o relatório é emitido com a composição de 100% Pastor Alemão.
No entanto, é muito importante lembrar que esse dado não é sinônimo de beleza, padrão de raça ou superioridade racial, necessariamente. E nem deve ser utilizado, de forma isolada, para a decisão por reproduzir ou não um cão de raça. Mesmo cães que são 100% de uma única raça, podem sim fugir ao padrão físico ou de temperamento, um dos motivos pelos quais a decisão por reproduzir ou não um cão é complexa, e deveria ser feita apenas por criadores profissionais e responsáveis.
O trabalho de um bom criador envolve, dentre várias outras questões, a análise criteriosa e contínua de seus cães, para a detecção de pequenas faltas ou falhas (físicas ou de comportamento). O criador deve conhecer muito bem o padrão da raça que cria, e ser capaz de detectar qualquer diferença em relação a este padrão. Na figura abaixo, mostramos um característica padrão da raça, conhecida popularmente, como sendo necessariamente uma orelha ereta, e logo ao lado, a orelha fora do padrão da raça.

No próximo abaixo, veja que se este criador ignora que um de seus cães tem esta falta/falha, e opta por reproduzi-lo, o defeito físico irá se perpetuar, e pode, inclusive ficar mais evidente, dependendo com que tipo de cão este primeiro foi reproduzido. No exemplo utilizado, o criador possibilitou que este cão nascido na 2ª geração (“A2”) fosse reproduzido com outro que tinha uma falta física similar (“B2”).

Na terceira geração, apesar se ser possível que nasçam filhotes sem esta falha, é bastante possível também que nasçam filhotes que tenham este problema ainda mais pronunciado, como o cão apontado com a seta. Se a esta altura este criador continuar reproduzindo esse cão, produzirá, progressivamente a cada geração, cães com faltas físicas que irão se acumular, desqualificando totalmente o padrão de seus cães, e produzindo cães muito diferentes do padrão da raça.
A figura abaixo mostra resultado possível da reprodução deste cão fora do padrão:
Para se chegar ao ponto de, por exemplo, produzir um filhote com uma cor fora do padrão (como o branco do filhote da direita mostrado na 4ª geração), ou um filhote menor do que o tamanho padrão da raça (como o filhote da esquerda mostrado na 4ª geração), além de cães com faltas “menores” como a orelha caída (como o 5º e o 6º cães), que não foram resultados de mistura com outra raça. Desta forma, nem sempre cães fora do padrão são originados de miscigenação de raças. Muitas vezes, estes cães existem apenas porque o responsável pela reprodução dos cães não era um verdadeiro criador, e simplesmente deixou que os cães se reproduzissem de forma aleatória e sem seleção ou direcionamento, o que é função principal de um criador responsável! Por último, lembre-se que é provável que a rapidez com que as faltas surjam e se pronunciem não seja tão grande como o demonstrado neste texto, que teve o objetivo de explicar o processo em poucas gerações, para simplificar. Uma situação mais realista ocorreria com faltas pequenas ocorrendo e se pronunciando ao longo de várias gerações, certo?
Assim, a pureza racial é o único dado que pode indicar se houve ou não mistura de raças nas gerações recentes, porém não é o único dado que deve ser levado em conta para a decisão ou não pela reprodução de um cão!
Fabiana Michelsen de Andrade
Geneticista especializada em Pequenos Animais
Bióloga, Mestre e Doutora pela UFRGS
Pós-doutorado Biologia Celular e Molecular (Reino Unido) e em Melhoramento Genético Animal (UFRGS)
Sócia fundadora e diretora científica da petgenoma